Presidente do BC vê inflação ‘muito alta’ e persistente no Brasil

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dragão da inflação voando 23_11_21O presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, disse nesta sexta-feira (19) que a inflação está “muito alta” e persistente no Brasil.

 

Puxada pela alta da gasolina, a inflação acelerou para 1,25% em outubro. Foi a maior variação para um mês de outubro desde 2002. Com o resultado, a inflação acumula alta de 8,24% no ano e de 10,67% nos últimos 12 meses. Os números são do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

 

“Quando a gente olha o mundo emergente, a gente vê uma inflação muito alta no Brasil, só menor do que a Turquia”, declarou Campos Neto.

 

Um levantamento realizado pelo Instituto Brasileiro de Economia (Ibre) da Fundação Getulio Vargas mostra que os índices de inflação na Argentina e no Haiti também estão superiores ao registrado no Brasil. O estudo não leva em conta o desempenho da Venezuela.

 

Campos Neto lembrou que o Banco Central tem subido os juros nos últimos meses para conter a alta dos preços.

 

Em outubro, a taxa básica da economia avançou para 7,75% ao ano, na sexta alta consecutiva. Com o anúncio, a taxa Selic atingiu o maior patamar em quatro anos. O BC indicou que deve elevar novamente o juro básico no começo de dezembro, para 9,25% ao ano.

 

“O Banco Central tem atuado, elevando juros. Controlar inflação é um dos instrumentos mais importantes para o crescimento sustentado, emprego e renda. Momentos de inflação alta foram um dos piores momentos de transferência de renda no Brasil”, declarou o presidente do BC.

 

Componentes da inflação

De acordo com Campos Neto, entre 80% e 85% da inflação no Brasil, nos últimos doze meses, refere-se ao aumento da alimentação, da eletricidade e dos combustíveis.

 

A inflação afetou sete em cada dez itens pesquisados pelo IBGE em setembro, o maior índice para o mês desde 2002.

 

Segundo o presidente do BC, os problemas também são enfrentados, em alguma medida, em outros países do mundo devido ao crescimento da demanda por produtos e serviços, ainda resultado de programas de estímulo da Covid-19.

 

Campos Neto acrescentou também que foram registrados “elementos locais para uma inflação mais persistente, que tem se disseminado de forma mais ampla recentemente”.

 

Entre os fatores internos citados pelo presidente do BC, está a indefinição no teto de gastos, que tem ajudado a pressionar o dólar.

 

“O que a gente precisa é ser atraente para o capital voltar a entrar no Brasil. O maior atrativo é a credibilidade”, declarou.

 

Ainda, segundo Campos Neto, dúvidas sobre o futuro do “arcabouço fiscal” (regras para as contas públicas), relacionado com mudanças no teto de gastos por meio da Proposta de Emenda à Constituição dos precatórios, têm gerado tensão nos mercados, pressionando o dólar e os juros bancários.

 

“O teto [de gastos] permite quase gastar mais, pois tenho credibilidade do teto. Permite gastar mais hoje, pois mais pra frente vai voltar pro teto. Quando começa ter uma percepção que esse arcabouço tem alguns questionamentos, começa a inserir um prêmio de risco diferenciado na curva [de juros]”, declarou Campos Neto.

 

Crescimento sustentado

De acordo com o presidente do BC, a inquietude do mercado sobre o novo pacote de ajuda, via mudanças na PEC dos precatórios, embute uma preocupação se o país conseguirá ter um crescimento estrutural mais alto nos próximos anos.

 

Além da mudança nas regras fiscais, há uma preocupação com a interrupção de reformas econômicas, que também impulsionariam o crescimento se fossem mantidas.

 

“Se tiver um crescimento de 2,5%, 3% [do PIB] e juro de 5%, 6%, 7% ao ano, tenho uma estabilidade da dívida ou uma melhora. E se tiver juro de 12%, 13% ao ano, e crescimento de 1% [do PIB], a gente tem uma trajetória explosiva [na dívida] e o questionamento é o que ser feito daqui pra frente para gerar crescimento sustentável no país”, afirmou.

 

Por fim, Campos Neto disse que é preciso avançar nas reformas estruturais, no Congresso Nacional, e ter transparência sobre qual vai ser a regra para as contas públicas para melhorar o cenário para o crescimento do país e controle da dívida pública.

 

Por Alexandro Martello, g1 — Brasília

 

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