Mais de 48 milhões de brasileiros não têm casa própria e precisam morar de aluguel

Embora o número de brasileiros morando em casas próprias ainda seja maior que o que paga aluguel, a parcela vem caindo ao longo dos últimos anos. No sentido inverso, a quantidade de brasileiros que precisa alugar um imóvel para morar aumentou em mais de 11 milhões nos últimos nove anos, saindo de 35 milhões em 2016 para 48,7 milhões em 2025, segundo dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad Contínua), divulgada pelo IBGE nesta sexta-feira.

 

Nesse período, o número de pessoas morando em casas próprias, recuou de 137,9 milhões para 129,8 milhões.

 

Se considerado o número de domicílios, o número daqueles em que há famílias vivendo de aluguel subiu 54,1% de 2016 a 2025, passando de 12,3 milhões para 18,9 milhões.

 

É um ritmo de expansão bem mais intenso que o crescimento dos imóveis próprios — as propriedades com financiamento já quitado cresceram apenas 7,3% naquele período, e as que ainda estão com financiamento em curso avançaram 31,2%.

 

Segundo William Kratochwill, analista da Pnad, os dados mostram que há um avanço na construção de apartamentos em ritmo superior ao de casas. Como costumam ser menores, os apartamentos são mais baratos, mas nem assim a população consegue comprá-los.

 

— O aumento do rendimento tem sido consistente ao longo dos últimos trimestres e anos, mas talvez não o suficiente para que as pessoas tenham acesso a uma casa. As pessoas crescem, casam ou vão morar sozinhas e não estão conseguindo comprar (imóveis), então estão optando pelo aluguel.

 

Em termos percentuais, a fatia de casas e apartamentos alugados no total de domicílios subiu de 18,4% em 2016 para 23,8% em 2025. Os imóveis próprios com financiamento já quitado caíram de 66,8% para 60,2%. Já a participação dos que ainda têm crédito a pagar subiu levemente, de 6,2% para 6,8% no período.

 

Por fim, os domicílios cedidos somavam apenas 8,9% em 2025, e outras formas de ocupação, como invasões, tinham participação residual de 0,3%. A pesquisa considera apenas domicílios particulares permanentes, ou seja, moradias ocupadas de forma contínua por uma pessoa ou família. Modelos de aluguel de curta temporada não são considerados.

 

Sonho da casa própria

Frederico Poley, pesquisador da Fundação João Pinheiro e especialista em habitação, explica que políticas públicas realizadas ao longo das últimas décadas contribuíram para que grupos de baixa renda tivessem maior acesso à compra de imóveis, o que explica como, hoje em dia, a maior parte da população possui casa própria.

 

Além disso, durante a expansão das cidades, até o século passado, a população mais pobre ocupava regiões mais distantes dos centros urbanos, nas periferias, onde conseguia construir suas casas.

 

— Tradicionalmente, no país, desde o início das políticas públicas habitacionais, a ideia da casa própria sempre foi muito forte e ainda é. E o país ainda tinha disponibilidade de terra, então, muitas vezes, principalmente entre os de mais baixa renda, iam lá e construíam suas casas, às vezes ocupando até de forma informal.

 

Esse cenário, no entanto, está mudando. Segundo o pesquisador, muitos brasileiros estão optando por morar em locais mais próximos dos centros urbanos, dos empregos, das universidades, mas acabam não conseguindo financiar esses imóveis dessas localizações, que ficam cada vez mais caros.

 

— Muitas vezes, se você quer acessar uma casa própria, tem que ir para um lugar mais distante. Mas acaba que o custo não compensa. Às vezes, é preferível pagar o aluguel em um lugar mais próximo do que comprar ou adquirir uma casa com preço mais acessível, mas mais distante.

 

Esse movimento, que afeta sobretudo jovens e idosos, que têm menos acesso ao financiamento, também se intensifica no cenário de juros altos.

 

— Normalmente, a casa é o bem mais caro para uma família, e, normalmente, uma das maneiras mais frequentes de adquirir esse bem é através do financiamento. Mas a taxa de juros muito elevada encarece isso e afeta tanto o lado de quem compra quanto o lado de quem constrói, já que carece muito o custo da construção.

 

Por Mayra Castro  Carolina Nalin — Rio de Janeiro