A maior parte dos brasileiros endividados vive sem ter clareza sobre o tamanho real das próprias dívidas. Segundo a pesquisa “Vulnerabilidade financeira: hábitos do endividamento dos brasileiros”, realizada pelo Centro de Estudos Aplicados de Marketing (CEAM) da ESPM, 71,9% da população não sabe o valor total que deve. Ao mesmo tempo, 73,7% admitem não ter controle efetivo sobre a própria vida financeira.
Os dados vêm em meio ao recorde de inadimplência no Brasil e ao início do Novo Desenrola Brasil, que busca renegociar dívidas e aliviar o cenário de endividamento entre os brasilerios.
O levantamento revela que o descontrole financeiro vem desde a rotina doméstica e se transforma em um efeito cascata que compromete orçamento, consumo e capacidade de planejamento. Cerca de 63% dos entrevistados afirmam não ter familiaridade com gestão de finanças pessoais. Além disso, 78,8% não fazem lista de compras e 65,8% não mantêm registros básicos de ganhos e gastos.
Para Flávio Santino Bizarrias, coordenador do CEAM da ESPM, a falta de transparência sobre as finanças impede qualquer tentativa de recuperação financeira. “Essa falta de clareza inviabiliza qualquer estratégia eficaz de renegociação ou redução de gastos, aprisionando o cidadão em um ciclo contínuo de juros e incerteza”, afirma.
Mesmo reconhecendo as dificuldades, muitos brasileiros enxergam problemas na própria relação com o dinheiro. Entre os entrevistados, 70,5% desaprovam a maneira como administram seus gastos. Ainda assim, a maior parte (60,4%) relata que a renda mensal mal consegue cobrir despesas consideradas básicas.
A sensação de insegurança financeira também domina o cenário. Segundo a pesquisa, 67,6% dos brasileiros dizem não se sentir financeiramente seguros, enquanto 67,9% afirmam não ter tranquilidade para lidar com imprevistos, principalmente pela ausência de reserva de emergência ou mecanismos de proteção financeira.
O estudo aponta ainda que o desconhecimento sobre investimentos aprofunda essa vulnerabilidade. A maioria dos entrevistados (77,3%) admite não ter experiência com produtos financeiros mais complexos — o mesmo percentual que nunca investiu em ações. Sem acesso ou familiaridade com alternativas de investimento, 74,4% dizem não diversificar suas formas de poupança ou aplicação financeira.
Como consequência, objetivos de longo prazo acabam ficando cada vez mais distantes. Hoje, 62,2% dos brasileiros afirmam não conseguir guardar dinheiro para realizar sonhos e projetos pessoais.
O impacto da pressão financeira também vai além do orçamento e afeta diretamente saúde mental, lazer e qualidade de vida. Para 78,4% dos entrevistados, o dinheiro deixou de ser um facilitador e passou a representar uma barreira para aproveitar a vida. A restrição aparece em momentos de descanso, que poderiam garantir um melhor bem-estara para o trabalhador: 67,2% dizem não conseguir gastar com lazer e 61,5% afirmam não ter condições de viajar nas férias.
Apesar do cenário de aperto financeiro e sensação constante de sobrevivência, a pesquisa identifica sinais iniciais de mudança de comportamento. Embora 52,2% reconheçam que ainda não cuidam do futuro financeiro como deveriam, cresce o interesse por planejamento: 28,7% já definem metas de curto prazo e 27,3% começam a olhar com mais atenção para objetivos de longo prazo.
O levantamento ouviu 300 brasileiros em todo o país entre os dias 1º e 20 de março deste ano, considerando recortes por gênero, faixa etária, região e renda.



