Compra de votos: investigação leva à cassação de quase toda a Câmara Municipal de cidade no Paraná

O que deveria ser a “casa do povo” e o palco de debates democráticos transformou-se em um cenário de silêncio e irritação após a revelação de um grave escândalo eleitoral.

 

No município de Francisco Alves, no interior do Paraná, quase na fronteira com o Paraguai, a Justiça Eleitoral cassou em 2026 os mandatos de sete dos nove vereadores eleitos devido a um esquema de compra de votos envolvendo a distribuição de combustível.

 

A investigação, conduzida pelo Ministério Público do Paraná (MPPR), comprovou que a coligação “Pra Frente Francisco Alves” utilizou uma rede econômica para garantir a eleição de seus candidatos, em vez de focar em propostas para a população.

 

De acordo com o promotor Filipe Rocha e Silva, a gravidade do caso reside na substituição do debate político pelo uso do poder econômico para cooptar o eleitor.

 

Veja abaixo a lista dos vereadores condenados

  • Devair Pôrto Santos, “Cutuca” (PSB)
  • Cioni Cassin do Nascimento, “Cioni Segurança” (PSDB)
  • Miguel Arcanjo dos Santos, “Miguel” (PSDB)
  • Célia Pereira Santos Geraldeli, “Celia Motorista” (PSB)
  • Maria Rosa Tolovi Ferrari, “Rosa Ferrari” (PSDB)
  • Dario Aparecido de Nigro, “Dario de Nigro” (PSDB)
  • Marcio Renato Trindade da Silva, “Professor Marcio Trindade” (PSB)

 

Veja abaixo a lista dos candidatos condenados

  • Edgar Saldeira Guedes, “Edgar Guedes” (PSDB)
  • Valdinei Cardoso dos Santos, “Valdinei Motorista” (PSB)
  • Jonas Rafael Leão, “Faustão” (PSDB)
  • Maria Aparecida da Silva, “Cida Cida” (PSB)
  • Daniel Rodrigues Santos, “Daniel Rodrigues” (PSB)
  • Ely Elete Dalabenetta da Cruz, “Ely da Feira” (PSDB)
  • Simone de Oliveira Avanci, “Simone Avanci” (PSB)

 

Em caso de condenação definitiva, município pode ter recontagem de votos

Os vereadores condenados não perdem os mandatos imediatamente, já que ainda podem recorrer da decisão. Se a sentença for confirmada após o recurso, a cidade de pouco mais de 8,5 mil habitantes vai perder a maior parte dos representantes na Câmara Municipal, que tem nove vagas para vereador.

 

Como os votos recebidos pelos condenados foram invalidados, os suplentes não assumem os cargos, necessariamente.

 

Sendo assim, a determinação sobre como as vagas para vereador serão preenchidas deve ser definida pelo juiz de segunda instância (no caso, o Tribunal Regional Eleitoral do Paraná), que pode determinar a recontagem dos votos, para que o quociente partidário seja calculado novamente e as vagas sejam distribuídas de acordo com os votos obtidos pelos demais candidatos. O TRE, no entanto, também pode optar por outras soluções.

 

O esquema nos postos

O centro do esquema, segundo o MPPR, era um posto de combustíveis localizado a cerca de 10 quilômetros do centro urbano da cidade.

 

Em buscas autorizadas pela Justiça um dia antes das eleições de 2024, a polícia encontrou notas fiscais, anotações com nomes de candidatos e pequenos vales para a retirada de cinco e dez litros de gasolina ou álcool.

 

Apenas no mês de setembro de 2024, o esquema teria distribuído 2.100 litros de combustível para eleitores.

 

O promotor ressaltou que a localização do posto tornava a situação ainda mais suspeita, já que não era crível que eleitores se deslocassem repetidamente até o local, fora da zona de atos de campanha, apenas para abastecer pequenas quantidades várias vezes ao dia.

 

Para o Ministério Público, a prática compromete a integridade do sistema democrático. “A partir do momento em que o nosso voto é trocado pelo pagamento de uma conta ou pelo abastecimento de um veículo, isso compromete todo um sistema e prejudica a vida futura do município”, alertou o promotor Filipe Rocha e Silva.

 

Provas digitais e silêncio dos acusados

Além dos documentos físicos, a investigação obteve provas por meio do celular apreendido de uma das candidatas da coligação, Maria Aparecida da Silva, conhecida como Cida.

 

Áudios recuperados mostram a candidata prometendo material de campanha e “o negócio lá para vocês pegarem a gasolina” a uma eleitora.

 

Após ser derrotada nas urnas, Cida chegou a lamentar em mensagens que não possuía dinheiro suficiente para competir com quem estava “comprando” votos.

 

Ao serem confrontados pela equipe de reportagem, os vereadores envolvidos evitaram responder às acusações. Enquanto alguns permaneceram em silêncio ou demonstraram irritação, outros afirmaram que só se manifestariam na presença de advogados ou que não tinham nada a declarar.

 

O vereador Devair Porto Santos, conhecido como “Cutuca”, foi o primeiro a chegar. E o primeiro a sair, após a abordagem da reportagem.

Repórter: De acordo com a acusação, o senhor distribuiu gasolina para eleitores. Eu queria saber qual é o seu posicionamento sobre isso.

Vereador: Já venho aí. Vou em casa e já volto.

O vereador coloca o capacete e sobe na motocicleta.

Repórter: O senhor não quer falar sobre as acusações?

Vereador: Não, já volto aí.

Repórter: O senhor não quer falar sobre as acusações? O senhor vai aparecer na reportagem.

O vereador acelera a motocicleta e deixa o local sem responder às perguntas.

 

Apenas o presidente da Câmara, o vereador Cioni, também condenado na ação, aceitou dar entrevista à reportagem. Ele negou as acusações de compra de votos por meio da distribuição de combustível.

 

“Eu não tenho um eleitor, uma pessoa que falou assim: ‘O Cioni me deu um real de gasolina'”, afirmou.

 

O vereador também disse ser contrário à prática de compra de votos.

 

“Eu não quero um mundo assim, de corrupção. Comprar o eleitor, manipular a população, eu não quero isso”, declarou.

 

Questionado pela reportagem se conhecia algum político que já tivesse comprado votos, respondeu: “Vou falar bem a verdade, a realidade. Existe, existe. É por isso que nosso mundo está desse jeito.”