Fim da jornada de trabalho 6×1: Senado inicia discussão de proposta

O plenário do Senado começou a discutir na tarde desta terça-feira a proposta de emenda constitucional (PEC) do fim da escala 6×1. O texto substitui o regime de seis dias de trabalho e um de folga na semana por uma jornada de cinco dias e dois de descanso, sem redução de salário.

 

Para ser aprovado pelo plenário do Senado, são necessárias a realização de cinco sessões de discussão da Casa. Havendo acordo, porém, esse calendário poderá ser encurtado. Mas, o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), avisou aos parlamentares que o tema será debatido sem atropelos, segundo a líder do PP no Senado, Tereza Cristina (MS).

 

O texto foi aprovado em setembro na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) do Senado quatro meses após a aprovação pela Câmara dos Deputados. Não houve alteração em relação ao texto enviado pela Câmara dos Deputados para evitar atrasos na tramitação. Para começar a vigorar, a PEC precisa ser promulgada pelas duas Casas.

 

A PEC é umas das principais apostas do presidente Lula, que ficou atrás do adversário Flávio Bolsonaro (PL), no primeiro turno das eleições. A legenda terá 28 assentos no Senado em 2027 e tem se posicionado contra o texto aprovado pela Câmara dos Deputados.

 

Em que pé está a proposta?

A PEC foi aprovada pela Câmara em 27 de maio, por 472 votos a 22 no primeiro turno e por 461 a 19 no segundo. O texto votado foi fruto de acordo entre o governo e o presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB).

 

No Senado, a proposta ficou quase três meses parada na Mesa Diretora, sem ser enviada à Comissão de Constituição e Justiça (CCJ). O despacho só ocorreu em 14 de agosto, depois de uma reaproximação entre Lula e Alcolumbre. A relação entre os dois havia se deteriorado depois que o Senado rejeitou a indicação do advogado-geral da União, Jorge Messias, para o Supremo Tribunal Federal (STF).

 

Em 2 de setembro, a CCJ aprovou a PEC em votação simbólica. O relator, senador Omar Aziz (PSD-AM), manteve integralmente o texto da Câmara e rejeitou as 36 emendas apresentadas. Registraram voto contrário os senadores Rogério Marinho (PL-RN), líder da oposição, Jaime Bagattoli (PL-RO), Tereza Cristina (PP-MS) e Hamilton Mourão (Republicanos-RS). A comissão também rejeitou um destaque de Marinho que retirava do texto a garantia de dois dias de descanso semanal.

 

No mesmo dia, porém, a base do governo desistiu de levar a proposta ao plenário. Sob obstrução da oposição e sem segurança de que teria os votos necessários, preferiu não arriscar uma derrota. No dia seguinte, ao responder a um apelo do senador Paulo Paim (PT-RS), que encerra o mandato neste ano, Alcolumbre prometeu levar a PEC a voto no plenário “após as eleições”.

 

O que acontece a partir desta terça-feira?

A PEC é o único item da pauta da sessão desta terça-feira. Em nota, a Presidência do Senado afirmou que o tema será debatido “com responsabilidade, equilíbrio e respeito às diferentes perspectivas”.

 

Por alterar a Constituição, a PEC precisa do apoio de três quintos do Senado — 49 dos 81 senadores — em cada um dos dois turnos de votação.

 

Quem vota agora são os senadores da atual legislatura. Os 54 eleitos no domingo só tomam posse em 1º de fevereiro de 2027. Parte dos atuais senadores foi derrotada nas urnas ou não concorreu, e parte ainda está em campanha: o próprio relator, Omar Aziz, disputa o segundo turno para o governo do Amazonas contra a candidata do PL, Professora Maria do Carmo.

 

E se o Senado mudar o texto?

Qualquer alteração de conteúdo faz a PEC voltar à Câmara para nova análise, o que adiaria a conclusão. Foi por isso que o relator rejeitou todas as emendas. Se o Senado aprovar o texto sem mudanças, a emenda é promulgada pelo Congresso e passa a valer sem necessidade de sanção presidencial.

 

O que muda se a PEC for aprovada?

  • Jornada: o limite semanal cai de 44 para 40 horas, mantido o teto de oito horas por dia.
  • Descanso: dois dias de repouso semanal remunerado, um deles preferencialmente aos domingos — a escala 5×2 passa a ser a regra.
  • Salário: a redução da jornada não pode vir acompanhada de corte salarial.
  • Transição: dois meses após a promulgação, a jornada máxima cai para 42 horas; ao fim de mais um ano (14 meses no total), chega a 40 horas.
  • Negociação coletiva: acordos e convenções podem tratar da compensação de horários e, durante a transição, da ampliação da jornada diária.
  • Pequenos negócios: uma lei complementar poderá criar medidas transitórias para microempreendedores individuais (MEIs), micro e pequenas empresas, condicionadas à manutenção do nível de emprego.
  • Setor público: contratos da administração pública terão até 12 meses para ser adaptados à nova jornada.