Lula diz que Trump fez ‘coisa desaforada’ e que não pediu reunião bilateral porque Brasil e EUA ainda estão em negociação

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou nesta quarta-feira que o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, fez uma “coisa desaforada” quando o governo do país sugeriu um novo tarifaço ao Brasil enquanto as negociações comerciais ainda estavam em andamento. Os dois presidentes participaram da reunião do G7 encerrada nesta quarta-feira, em Évian-les-Bains, na França.

 

— Não pedi bilateral com o Trump porque estamos em negociação. Eu acho que o que ele fez foi uma coisa desaforada para o Brasil. Por isso que eu disse que ele continua agindo como imperador. Nós estávamos fazendo acordo — disse Lula em entrevista, ao ser questionada se havia conversado com Trump durante a cúpula.

 

Trump também participou da cúpula realizada em Évian-les-Bains, na França, mas não houve encontro formal entre os dois líderes. Lula voltou a dizer que foi surpreendido pelas medidas anunciadas pelos Estados Unidos, incluindo a classificação do Comando Vermelho (CV) e do Primeiro Comando da Capital (PCC) como organizações terroristas.

 

Segundo o presidente, ele chegou a tratar do tema diretamente com Trump anteriormente e defendeu uma diferenciação entre a realidade das facções brasileiras e o conceito adotado pelos americanos para organizações terroristas.

 

— Eu fiquei surpreso quando recebo a notícia da punição, inclusive colocando as facções criminosas como terroristas. Eu tinha falado para ele: essas facções são terroristas para as comunidades, não são terroristas como você pensa. Então é diferente. Mesmo assim, não o Trump, mas o Marco Rubio anunciou isso.

 

Lula afirmou que a decisão reforçou sua avaliação de que não havia motivo para buscar uma reunião bilateral durante o encontro do G7. Apesar disso, ressaltou que o diálogo entre os dois países permanece aberto.

 

— Obviamente eu não tinha o que conversar com ele. Não tinha por que pedir bilateral, nós estamos negociando. A hora que terminar, se não der em nada, eu não tenho nenhum problema de ligar para o Trump e marcar uma outra conversa — afirmou.

 

O presidente disse ainda confiar na condução das negociações por parte do chanceler Mauro Vieira e do ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Márcio Elias Rosa.

 

— Eu acredito na capacidade do Mauro, do Márcio Rosa de fazer a negociação que estamos fazendo e acredito na competência da Polícia Federal para combater o crime organizado.

 

Mais cedo, Lula já havia criticado o governo dos Estados Unidos durante uma conversa informal com o presidente da Coreia do Sul, Lee Jae-myung, captada por um microfone aberto nesta quarta-feira, durante a cúpula do G7. Em um trecho audível do diálogo, Lula afirmou que o Brasil não mantém divergências com outros países e disse não gostar de conflitos. Na sequência, criticou a postura adotada por Washington.

 

— Eu não gosto de briga (…) Eu não gosto do comportamento do governo americano — afirmou o presidente.

 

Parte do diálogo foi registrada com baixa qualidade de áudio, o que dificulta a compreensão integral do que foi dito.

 

Em outro momento da gravação, é possível ouvir Lula mencionar a palavra “imperador”. O presidente já utilizou o termo anteriormente em críticas a Donald Trump, mas a qualidade da gravação não permite identificar o contexto exato da fala nem a quem ela se referia.

 

No ano passado, durante a cúpula do Brics, o petista afirmou que “o mundo não quer imperador” ao comentar ameaças de elevação de tarifas comerciais por parte do republicano. Em abril deste ano, também criticou o que chamou de tentativas americanas de impor decisões a outros países.

 

Nos últimos dias, Lula tem elevado o tom das críticas ao protecionismo e ao unilateralismo nas relações internacionais. Durante discurso na sessão ampliada do G7, na terça-feira, o presidente criticou o avanço do protecionismo e do unilateralismo nas relações internacionais e defendeu o fortalecimento da cooperação entre os países para enfrentar desafios globais.

 

A participação de Lula na cúpula ocorre como convidado do G7, grupo formado por Estados Unidos, Alemanha, França, Reino Unido, Itália, Canadá e Japão. O presidente brasileiro participou de reuniões sobre desenvolvimento econômico, segurança internacional e inteligência artificial, além de encontros bilaterais com outros líderes presentes no evento.