Inadimplência, em nível recorde, não dá sinal de trégua

Em um cenário de juros altos por um período prolongado e famílias endividadas, a inadimplência nas operações de crédito — que já está em níveis recordes — não deve dar sinais de trégua tão cedo. Bancos e economistas ainda esperam uma piora no indicador de atrasos, já que o espaço para cortes na Selic está menor que o esperado e flexibilização monetária feita até agora tem efeito defasado sobre a economia.

 

Mesmo com desemprego baixo e atividade econômica ainda aquecida, famílias com endividamento nas máximas históricas e empresas muito alavancadas têm enfrentado dificuldades para arcar com o custo da dívida. A inadimplência com recursos livres, que são mais diretamente afetados pela Selic, encerrou junho em 7,6%, patamar recorde, na carteira de pessoa física (PF). Na pessoa jurídica (PJ), o indicador está em 4%, maior patamar desde 2018.

 

A situação só não é pior porque os bancos veem priorizando linhas de crédito com garantia, especialmente no segmento de pessoa jurídica (em modalidades cobertas pelos fundos FGI/FGO, que contam com recursos do Tesouro). Ao mesmo tempo, o governo lançou uma nova versão do programa de renegociação de dívidas Desenrola, voltado a pessoas físicas. Além disso, os mercados de capitais cresceram muito nos últimos anos, financiando grandes empresas e, assim, reduzindo o risco registrado no balanço dos bancos.

 

As incertezas no cenário externo, como as tarifas de Donald Trump e a guerra no Irã, afetam a inflação e, em consequência, as decisões do Banco Central (BC). Já no contexto doméstico, as eleições e uma projeção de PIB mais fraco em 2027 fazem com que as perspectivas para a inadimplência não sejam promissoras. Apesar disso, o crédito permanece aquecido. O saldo de empréstimos e financiamentos cresceu 9,7% nos 12 meses encerrados em junho. Analistas e CEOS de bancos reconhecem essa pressão e discutem agora qual será a intensidade do ciclo de piora.