A economia da Argentina virou tema do primeiro debate presidencial para o segundo turno das eleições brasileiras.
Ao questionar candidato Flávio Bolsonaro (PL) sobre sua proximidade com Javier Milei, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) perguntou se o adversário pretendia reproduzir no Brasil a política econômica adotada pelo argentino.
A discussão ocorreu depois de Daniella Marques, coordenadora econômica da campanha de Flávio Bolsonaro, apontar o governo de Milei como inspiração para medidas de redução de impostos e burocracia.
Os indicadores, porém, revelam um quadro mais complexo: a economia argentina voltou a crescer e a inflação desacelerou, mas a pobreza e o desemprego aumentaram, enquanto o consumo interno e setores importantes para a geração de empregos enfrentam dificuldades.
Economia cresce nos dois primeiros trimestres de 2026
O Produto Interno Bruto (PIB) argentino cresceu 2,3% no primeiro trimestre de 2026 em comparação com o mesmo período do ano anterior. No segundo trimestre, a alta foi de 2% na mesma base de comparação, segundo o Instituto Nacional de Estatística e Censos (Indec).
Os resultados positivos, porém, escondem uma perda de ritmo. Entre abril e junho, o PIB caiu 0,6% em relação aos três primeiros meses do ano, já descontados os efeitos sazonais. O consumo privado recuou 2,4%, o consumo público diminuiu 2,3% e os investimentos caíram 0,8%.
Inflação cai, mas pobreza volta a subir
Um dos principais resultados reivindicados pelo governo de Javier Milei é a desaceleração da inflação. O índice oficial de preços, que chegou a quase 290% no acumulado de 12 meses, caiu para cerca de 30% durante os primeiros dois anos de sua gestão.
Em agosto de 2026, a inflação mensal desacelerou para 1,7%, o menor resultado desde junho de 2025. A estabilização dos preços foi acompanhada de um forte ajuste fiscal, com cortes de gastos públicos, retirada de subsídios e outras medidas de austeridade.
Desemprego e informalidade pressionam trabalhadores
O mercado de trabalho também mostra os limites da recuperação. A taxa de desemprego chegou a 7,9% no segundo trimestre de 2026, ante 7,6% no mesmo período de 2025, segundo o Indec.
A estimativa é que aproximadamente 1,8 milhão de argentinos estivessem desempregadas nos 31 aglomerados urbanos acompanhados pelo instituto.
Além disso, quase metade da população economicamente ativa trabalha na informalidade, sem vínculo formal de emprego.
O quadro combina, portanto, uma inflação muito menor do que a registrada no início do governo Milei com dificuldades para transformar a estabilização econômica em melhora contínua das condições de vida.
Empresas e indústria enfrentam dificuldades
A pressão sobre a atividade doméstica também aparece nos dados sobre empregadores com trabalhadores registrados.
Segundo a Superintendência de Riscos do Trabalho (SRT), o número de empregadores com pelo menos um funcionário registrado no sistema de seguro contra acidentes caiu de 512.357, em novembro de 2023, para 480.067, em julho de 2026.
Foram 32.290 empregadores a menos, uma redução de 6,3%. A queda marcou o 18º mês consecutivo de retração.
Dados da União Industrial Argentina e da Confederação Argentina da Média Empresa também indicam que os custos elevados e o endividamento das famílias têm limitado o consumo e o desempenho das empresas locais.



