Pré-candidato à Presidência, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e políticos de oposição ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) celebraram nesta quarta-feira, 18, o rebaixamento da escola de samba Acadêmicos de Niterói para a Série Ouro, segundo escalão do carnaval carioca. A agremiação entrou na mira de parlamentares da direita após o desfile em homenagem a Lula e a ala que ironizou a “família em conserva”, no domingo, 15.
“Dos projetos de Deus não se zomba. Lula é sempre uma ideia ruim, seja para governar o País, seja para um samba-enredo. Nunca nos esqueçamos: família é algo sagrado. Depois dessa escola, o próximo rebaixamento vai ser do Lula e do PT”, escreveu o senador nas redes sociais.
A publicação traz uma imagem do desfile com homens caracterizados como enlatados, com selo de “família”. Na foto, Flávio adicionou a legenda: “Acadêmicos de Niterói rebaixada! Quem ataca família não merece aplauso”.
A apresentação foi criticada por parlamentares das frentes evangélica e católica do Congresso, que afirmaram que cristãos foram retratados de forma desrespeitosa. Em reação, Flávio e outros oposicionistas compartilharam imagens com ilustrações de latas em conserva estampadas com fotos de suas famílias.
‘É hora de rebaixar o Lula’, dizem oposicionistas
Outros políticos alinhados à oposição também comemoraram o resultado. Aliados do ex-presidente Jair Bolsonaro associaram o desempenho da escola à disputa presidencial e, assim como Flávio, afirmaram que pretendem “rebaixar” Lula nas eleições de outubro.
Pré-candidato ao Senado por Santa Catarina, o ex-vereador Carlos Bolsonaro (PL) afirmou que a escola “desagradou a maioria”, “usou a máquina pública” e saiu do desfile com uma ‘derrota humilhante”.
O deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG) disse que o rebaixamento da agremiação mostra que Lula está “afundando o Brasil”. “Isto sim foi uma homenagem muito bem adequada”, declarou. Já o deputado Zé Trovão (PL-SC) escreveu: “A escola de samba já foi; em outubro será a vez de rebaixarmos o Lula ao esquecimento”.
Críticas e representações na Justiça
A oposição a Lula já havia criticado na segunda-feira, 16, o desfile da Acadêmicos de Niterói homenageando o petista. O Partido Novo anunciou que acionará novamente o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) para pedir a inelegibilidade do presidente. A legenda já havia tentado barrar a apresentação.
O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), principal adversário de Lula na disputa presidencial, também criticou o petista e disse que ele usa dinheiro público “para fazer campanha antecipada pra ele mesmo”. O pré-candidato na eleição deste ano afirmou que também pretende entrar com uma ação contra Lula no TSE em razão da apresentação.
A Frente Parlamentar Católica e a Frente Parlamentar Evangélica no Congresso criticaram o desfile. As duas bancadas afirmam que o conteúdo exibido desrespeitou a fé cristã e que acionarão o Judiciário e órgãos de controle.
A Ordem dos Advogados do Brasil Seccional Rio de Janeiro (OAB-RJ) afirmou, em nota divulgada nesta terça-feira, 17, que a escola de samba “cometeu prática de preconceito religioso dirigido aos cristãos”.
O presidente nacional do Partido dos Trabalhadores (PT),Edinho Silva, minimizou às críticas ao desfile e classificou como “ridícula” a tentativa de transformar a homenagem a Lula em desgaste político.
Assim como Niterói com Lula, escola que revoltou PT com homenagem a Alckmin e Serra também foi rebaixada; relembre
Em 2006, a agremiação paulista Leandro de Itaquera incluiu na apresentação uma alegoria com bonecos de Geraldo Alckmin e José Serra, ambos à época do PSDB — e gerou revolta do PT.
Nos dois casos, de Niterói e Itaquera, a escola de samba terminou o carnaval rebaixada.
Em outubro de 2006, Lula seria candidato à reeleição ao Planalto. Dois tucanos, o governador Alckmin (hoje no PSB e vice do petista) e o então prefeito da capital despontavam entre os cotados para enfrentá-lo nas urnas. Meses antes do pleito, a Leandro de Itaquera levou para o Sambódromo do Anhembi um enredo sobre “festas e tradições paulistas sobre as águas de um novo Tietê”, com alusões a festividades locais — parada gay e carnaval — e às obras de rebaixamento da calha do rio, uma das bandeiras do PSDB em São Paulo.
Um dos carros alegóricos do desfile mostrava bonecos gigantes de Alckmin e Serra, um busto do ex-governador Mário Covas e, na dianteira, um tucano.
Vereadores paulistanos do PT entraram, à época, com ação popular na Justiça de São Paulo para impedir que a escola de samba desfilasse com a homenagem a Alckmin e Serra. A bancada do PT na Câmara Municipal protocolou um requerimento para apurar quanto de dinheiro público a agremiação havia recebido, e o partido ainda buscou a justiça por uma suposta infração à legislação eleitoral.
O PT dizia abertamente que o objetivo era conseguir uma liminar que impedisse a entrada do carro alegórico na avenida. Apesar das reclamações, o desfile foi mantido. Lula foi reeleito, contra Geraldo Alckmin, e Serra elegeu-se governador de São Paulo.
A Leandro de Itaquera ainda hoje é comandada por Leandro Alves Martins, que havia sido candidato a vereador pelo PSDB em 2004 — ele não foi eleito.



