Presidente do Paraguai, aliado de Trump, renuncia em meio à crise no Ueno Bank, mas não evita abertura de processo de impeachment

O presidente do Paraguai, Santiago Peña, aliado do Presidente americano Donald Tump, renunciou ao cargo nesta quinta-feira, após perder o apoio da bancada do Partido Colorado no Congresso, enquanto a Câmara dos Deputados se preparava para votar pela abertura de um processo de impeachment contra ele — motivado pela crise no banco digital Ueno Bank, que levou ao bloqueio de contas correntes e investimentos de cerca de 40% da população e paralisou o comércio nacionalmente.

 

A apresentação da renúncia não impediu a abertura do processo de impeachment, aprovada por unanimidade pelos 78 deputados presentes na sessão. Caso a renúncia de Peña seja rejeitada pelos parlamentares, o processo de impeachment seguirá para o Senado, responsável por conduzir o julgamento político. Uma sessão extraordinária conjunta das duas Casas do Congresso, convocada para decidir se aceitava ou rejeitava a renúncia, foi encerrada por falta de quórum nesta quinta. Se sua saída for confirmada, o vice-presidente Pedro Alliana deve assumir o posto.

 

Eleito presidente do Paraguai aos 44 anos, em 2023, com apoio do líder colorado Horacio Cartes, o ex-economista do Fundo Monetário Internacional (FMI) se tornou a pessoa mais jovem na História moderna do país a assumir o Palácio de López. Conservador, Peña tentou apresentar seu país como um paraíso fiscal de baixa tributação para investidores estrangeiros e se tornou um importante apoio às políticas do presidente americano, Donald Trump, na região, aderindo à iniciativa de segurança Escudo das Américas e autorizando a presença de militares americanos no território do país.

 

A queda, porém, veio pela instabilidade financeira provocada pela quebra do Ueno Bank, instituição financeira digital altamente popular no país, que atendia a 40% da população — incluindo brasileiros que vivem no Paraguai. O Banco Central paraguaio interviu no Ueno Bank alegando que o índice de solvência havia caído abaixo do mínimo exigido de 50% após ajustes em seus balanços patrimoniais. A medida provocou um curto-circuito na atividade econômica, uma vez que dois terços das transações eletrônicas nas grandes lojas de varejo eram feitas por meio de contas da instituição.

 

A implicação direta de Peña no caso ainda deve ser esclarecida em detalhes. Politicamente, pesaram contra ele o fato de ter sido acionista de um grupo que controlava o Ueno Bank, desvinculando-se da instituição totalmente apenas em 2025. Ainda na terça-feira, no início da crise, Peña descartou preocupações sobre o balanço patrimonial do Ueno Bank, criticando a atenção da imprensa, que, segundo ele, tinha a intenção de provocar temor na população.

 

A crise levou ao congelamento dos depósitos de cerca de 3 milhões de pessoas. A oposição a Peña no Congresso o acusou de ter tomado “decisões regulatórias supostamente favoráveis” ao banco e de concentrar ali fundos previdenciários, em um possível conflito de interesses. Estima-se que o Ueno Bank tivesse cerca de US$ 850 milhões (R$ 4,6 bilhões no câmbio atual) em depósitos públicos, incluindo recursos do Instituto de Previdência Social, do qual dependem as aposentadorias e a seguridade social dos trabalhadores.